Países industrializados exportam milhões de toneladas de produtos usados, como roupas e equipamentos eletrônicos, para regiões do Sul Global, levando consigo os custos ambientais e de saúde associados ao ciclo de vida desses itens.

No mercado de Kantamanto, em Accra, Gana, chegam milhares de peças de roupas usadas semanalmente. Algumas encontram novos compradores, enquanto outras são descartadas em lixões, corpos d'água ou aterros informais.

A responsabilidade ambiental que existe nos países industrializados não acompanha esses produtos para o Sul Global. Esta é uma contradição pouco discutida: embora os materiais circulem globalmente, a responsabilidade ambiental pára na fronteira.

Quando se recicla um aparelho eletrônico ou se doa roupas, muitas vezes se sente que se fez parte da solução ambiental. No entanto, a história não termina aí. Muitos desses itens têm uma segunda vida em outros lugares ou simplesmente chegam ao fim de sua jornada, às vezes a milhares de quilômetros de distância.

Redes complexas e difíceis de rastrear

Este tema foi debatido em um simpósio chamado 'Quando o Sul Global inspira o Norte Global', realizado durante o congresso da Acfas (Associação Canadense-Francesa para o Avanço das Ciências).

Jocelyne Landry Tsonang, da Rede de Economia Circular Africana, destacou que os produtos frequentemente viajam sem as mecanismos de responsabilidade, taxas ecológicas ou financiamento associados. Os custos ambientais e sociais relacionados ao fim de vida desses produtos são então transferidos para regiões geralmente com menos recursos para gerenciá-los.

O caso da e-waste (lixo eletrônico) é particularmente revelador. De acordo com o Monitor de E-waste 2024, o mundo gerou 62 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos em 2022. Entretanto, apenas 22,3% deste lixo foi coletado e reciclado através de canais documentados. O resto frequentemente segue caminhos difíceis de rastrear, alimentando mercados globais complexos.