Durante o período de nascimento na pecuária de corte, a proteção dos bezerros recém-nascidos é crucial. A bicheira de umbigo, causada pela miíase cutânea das larvas da mosca Cochliomyia hominivorax, representa um desafio significativo, gerando sofrimento animal e prejuízos econômicos. A infecção pode levar à morte do animal em poucos dias se não for tratada adequadamente.

A mosca adulta é atraída pela mucosa exposta do cordão umbilical cortado, onde rapidamente deposita ovos. Em menos de 24 horas, as larvas eclodem e começam a invadir os tecidos, podendo resultar em infecções bacterianas secundárias e complicações como o “umbigo duro” ou “junta inchada”, que afetam severamente o desenvolvimento dos bezerros.

A perda de eficácia das soluções tradicionais

Por mais de trinta anos, a doramectina tem sido amplamente utilizada na prevenção de miíases em bezerros nas propriedades rurais brasileiras. Contudo, o uso contínuo dessa substância levou ao surgimento de populações de moscas resistentes. Segundo Fernando Borges, médico-veterinário e especialista em Medicina Veterinária, estudos realizados no Brasil e na Argentina confirmam a diminuição da eficácia da doramectina.

Com a resistência em ascensão, a capacidade de ação dos produtores fica comprometida. O aumento das dosagens tradicionais para tentar controlar a infecção pode resultar em intoxicações e até morte dos bezerros. Além disso, a natureza extensiva do manejo em muitas propriedades dificulta a identificação precoce das infestações.

Novas alternativas para o manejo neonatal

Com a necessidade de diversificar os princípios ativos para combater a resistência parasitária, pesquisas têm explorado novas opções terapêuticas. Um estudo realizado pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com a MSD Saúde Animal, avaliou a eficácia da molécula fluralaner no tratamento da bicheira de umbigo.

Utilizada na pecuária bovina desde 2022, o fluralaner apresenta um mecanismo de ação sistêmico e é aplicado no dorso do animal. Os testes de campo com uma formulação a 5% demonstraram uma taxa de proteção preventiva de 96% nos bezerros analisados.

De acordo com Daniel Rodrigues, médico-veterinário e gerente técnico da MSD Saúde Animal, assegurar a proteção nos primeiros dias de vida é essencial para evitar tratamentos corretivos posteriores, reduzindo assim a necessidade de antibióticos e minimizando o descarte de animais na maternidade.

A resistência crescente aos antiparasitários destaca a importância de consultas regulares com médicos-veterinários para ajustar os protocolos sanitários de cada propriedade, integrando boas práticas de manejo neonatal com o uso consciente de tecnologias preventivas.