Mali enfrenta uma crescente insurgência jihadista, especialmente no norte do país, onde o grupo Jama'at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) se destaca. Com o recente afastamento das tropas francesas e a colaboração com a Rússia, a influência do JNIM se expande, levando a discussões sobre a possível intervenção militar dos Estados Unidos.

Fundado em 2017, o JNIM une diversas facções islâmicas sob a bandeira da al-Qaeda, tornando-se a principal força jihadista na região do Sahel. O objetivo do grupo é estabelecer uma ordem islâmica e desestabilizar as estruturas estatais e a influência ocidental. Segundo Tobias Rüttershof, chefe do Programa Sahel da Fundação Konrad Adenauer, o JNIM já controla a segurança em várias áreas, coletando impostos e mediando conflitos locais, em algumas regiões superando a presença do Estado maliano.

Motivos para a consideração de ataques dos EUA

De acordo com o Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA, o JNIM foi responsável por mais de 1.200 mortes em 2025, tornando-se a segunda organização terrorista mais letal do mundo. A expansão geográfica do grupo, que agora atua em Burkina Faso, Níger e nos estados costeiros da África Ocidental, preocupa Washington.

Há divisões no governo dos EUA sobre a possibilidade de ações militares diretas. Defensores da ação, como Sebastian Gorka, do Conselho de Segurança Nacional, afirmam que a ameaça representada pelo JNIM precisa ser contida, especialmente após a frustração com a estratégia de segurança da Rússia em Mali, que não produziu os resultados esperados.

Reação cautelosa do governo maliano e da população

O governo de Mali respondeu com cautela às especulações sobre ataques aéreos dos EUA. O ministro das Relações Exteriores, Abdoulaye Diop, afirmou que não houve confirmação oficial e ressaltou que o país está focado em suas próprias forças de segurança, defendendo sua soberania. A opinião pública está dividida; um residente de Bamako expressou que qualquer ação que traga paz é bem-vinda, enquanto outro mencionou a presença russa, questionando a necessidade de intervenção americana.

Abdoulmoumouni Abbas, especialista em radicalização no Sahel, alerta para os riscos de superestimar a eficácia de ataques aéreos, citando experiências anteriores em operações de contraterrorismo na Nigéria que não alcançaram seus objetivos. Ele ressalta que os problemas subjacentes, como pobreza e tensões étnicas, permanecem sem solução, e a retaliação contra interesses ocidentais pode aumentar.

Além disso, ataques que resultem em mortes de civis podem fornecer à JNIM material para propaganda e recrutamento. Rüttershof enfatiza que a solução para o conflito no Mali não pode ser apenas militar; é necessário um enfoque em construção de Estado, boa governança e desenvolvimento econômico.

A importância geopolítica de Mali também não pode ser ignorada. Uma intervenção dos EUA teria implicações não apenas de segurança, mas também na dinâmica de poder da região, onde a Rússia já consolidou sua influência. O ministro Diop reiterou que Mali espera que qualquer parceiro pergunte ao país sobre suas reais necessidades.