No começo de outubro, os jurados de Goiânia ouviram a voz de um homem assassinado 14 anos antes. Na véspera do julgamento, um tribunal do Arizona tinha anulado uma pena justamente porque um morto falara numa audiência. Nos dois casos, a vítima apareceu num vídeo com o próprio rosto e a própria voz, recriados por inteligência artificial, dizendo palavras que lhe foram atribuídas depois da morte.

Google Gemini Rafaela Azevedo de Otero A vítima de Goiânia era um advogado. Em 5 de julho de 2012, aos 38 anos, ele foi atingido por um tiro no peito no estacionamento de um supermercado, poucas horas antes de o filho nascer. Em 1º e 2 de outubro deste ano, três réus foram a júri, e dois deles acabaram condenados [1].

Segundo a imprensa local, foi durante as sustentações da acusação e da assistência que o plenário viu a vítima falar ao filho: “Se tem algo que me dói, meu filho, é o tempo que me roubaram. Seja um homem forte”. Para um dos irmãos da vítima, não era apelo emocional, mas um modo de “dar humanidade ao processo e voz a quem teve sua vida interrompida de forma brutal” [2].

Quem já fez júri conhece a frase “se a vítima pudesse falar”, tantas vezes ouvida da tribuna da acusação. O recurso é antigo e tem nome, prosopopeia, a figura que empresta voz a quem está ausente. Cícero recorreu a ela em 56 a.C., quando defendia o jovem Célio de uma acusação inspirada por Clódia.

Avisou aos juízes que precisava chamar alguém dos mortos “que fale por mim” e escolheu Ápio Cláudio, antepassado dela.