Na China, o governo passou a se referir oficialmente a mulheres solteiras com mais de 27 anos como "deixadas para trás", uma expressão criada para incentivar o casamento e a formação de famílias. Contudo, essa terminologia tem gerado controvérsias e evidencia a tensão entre as políticas públicas destinadas ao crescimento populacional e uma geração de mulheres que prioriza a independência, carreira e realização pessoal.
A expressão surgiu em um contexto de preocupação das autoridades com a diminuição no número de casamentos e nascimentos. Com a população encolhendo e envelhecendo rapidamente, o governo vê a redução na formação de novas famílias como um fator que pode comprometer o crescimento econômico do país nas próximas décadas.
Desinteresse pelo casamento
Entretanto, a estratégia do governo não parece ter alcançado o efeito desejado. Uma pesquisa mencionada na reportagem revela que 70% das mulheres chinesas nascidas após 1990 afirmam que o casamento não é sua principal prioridade. Muitas delas preferem permanecer solteiras a entrar em um relacionamento apenas para atender às expectativas familiares ou sociais.
Essa mudança de comportamento está, em parte, ligada à crescente independência financeira das mulheres. Uma jovem entrevistada expressou essa transformação ao afirmar que elas "não dependem mais dos homens para nada". Para a geração nascida após os anos 2000, fatores como afinidade, interesses em comum e bem-estar são considerados mais importantes do que patrimônio ou estabilidade financeira na escolha de um parceiro.
Pressão social e suas consequências
Enquanto isso, parte da geração mais velha continua a pressionar os filhos para que se casem. Em Xangai, por exemplo, é comum que pais frequentem o tradicional mercado de casamentos, onde divulgam anúncios com informações como idade, profissão e renda dos filhos solteiros na tentativa de encontrar um parceiro adequado.
A discussão sobre as chamadas "mulheres deixadas para trás" ocorre em um momento crítico para a China, que enfrenta uma queda populacional e uma diminuição da força de trabalho, enquanto o número de idosos aumenta. De acordo com a reportagem, até 2035, a China pode perder uma população equivalente à da França, o que elevará os gastos com aposentadorias e diminuirá a quantidade de pessoas em idade produtiva.
Além disso, especialistas apontam que o país ainda sofre as consequências da política do filho único, que esteve em vigor entre 1980 e 2015. A preferência histórica por meninos provocou um desequilíbrio entre homens e mulheres em idade de casar, dificultando a busca de parceiros para milhões de homens.
No final da reportagem, a decisão de muitas mulheres de adiar ou rejeitar o casamento é apresentada como uma resposta às expectativas impostas por décadas. Embora ainda tenham representação limitada nas principais instâncias de poder político, essas mulheres estão cada vez mais reivindicando sua autonomia em suas vidas pessoais, desafiando a ideia de que casar e ter filhos é um destino obrigatório.
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